O QUE FAZER QUANDO NOSSOS FILHOS APRENDEM UM NOVO IDIOMA E MISTURAM AS PALAVRAS?

É motivo de orgulho e satisfação quando vemos os nossos filhos aprendendo um segundo idioma. Contudo, a preocupação surge quando os flagramos misturando tal idioma com a língua materna. Às vezes, eles usam duas palavras de idiomas diferentes em uma frase. E então nos perguntamos se isso é normal e se devemos corrigi-los.

Em primeiro lugar, nós pedimos que você não se preocupe, pois essa mistura de línguas é muito normal no desenvolvimento da linguagem de uma criança bilíngue. Então se estamos falando de uma criança com 2 (dois) anos de idade, isso é perfeitamente natural. O fato dela usar palavras de um idioma ao falar outro, ou a troca de códigos é um processo.

O que precisamos entender é como as crianças aprendem a linguagem e, em seguida, como integram uma ou mais línguas adicionais em sua comunicação. Os três primeiros anos são a chave do aprendizado.  

1º ano: Os bebês brincam com sons, balbuciam e começam a formar palavras. Geralmente, por volta dos 18 meses, eles falam palavras soltas e nomeiam coisas mais fáceis como "mama", "dada", "tchau", "oi".

2º ano: O vocabulário das crianças apresenta sinais de crescimento e elas, eventualmente, começarão a juntar duas ou três palavras em frases curtas, como "tudo se foi", "mais, por favor" ou "papai fora" .

3º ano: Com essa idade, a criança em média têm o básico de sua língua materna e aproximadamente 90% da gramática em vigor.



Estes são fatos gerais. A verdade é que cada criança aprende a falar em seu próprio ritmo. Algumas crianças esperam para falar até ficarem ainda mais velhas e apresentarem frases mais completas. Esteja a criança aprendendo um idioma ou mais, lembre-se que o segredo do aprendizado é conversar com ela. A taxa de desenvolvimento do vocabulário das crianças é influenciada pela quantidade de conversa a que são expostas.

Quanto mais nos dirigimos a uma criança, mais rapidamente ela aprenderá novas palavras.

Não fique assustado ou surpreso com essa recomendação. Mesmo que a criança ainda não consiga falar, o princípio na aquisição de linguagem infantil permanece, isto é, ouvindo é que se aprende. O sistema educacional de países anglicanos chama esse processo de INPUT [Entrada] e OUTPUT [Saída].

Em outras palavras, quanto mais linguagem a criança é exposta, mais rica é a linguagem. Quanto mais línguas ela for exposta, mais a criança aprenderá. Os bebês são muito inteligentes e eles analisam a linguagem com base na frequência e consistência da exposição, e a reproduzem - pelo menos tentam - depois de codificá-la.

Bastar falar com a criança. E muito!

O INPUT deve ser o mais rico possível; isso quer dizer que ele deve conter também cantigas, rimas, jogos de palavras e muita leitura. Os pais e responsáveis devem conversar com seus filhos. O mesmo processo se aplica aos alunos bilíngues.

Em algumas famílias, as crianças são educadas a aprender um idioma tão cedo porque o histórico familiar pode estar associado a um nativismo distinto; ou seja, o pai ou a mãe, ou o responsável direto pode ter uma ligação muito forte com outro idioma, e naturalmente a criança é apresentada ao mesmo ao nascer. Às vezes, a babá ou o cuidador fala outro idioma e isso já é considerado uma forte influência.

O que os pais ou responsáveis devem se atentar é quanto a forma como se comunicam. Se falarem palavrões ou gírias demais, a criança eventualmente seguirá os mesmos passos. O ideal é que as crianças participem de escolas bilíngues com crianças na mesma faixa etária, preferencialmente. No caso de impossibilidade, caberá ao pai, mãe ou responsável que apresente um material a criança como vídeos, que são mais interativos e ilustrativos.

As pesquisas mostram que as crianças podem aprender até um terceiro idioma, dependendo da influência a qual estão expostas, pois a mensagem que passa por seus neurônios são processadas mesmo nas áreas de processamento de linguagem do cérebro e isso se torna parte de seus caminhos neurais. 

Quando fazemos algo novo, ou ainda pela primeira vez, o cérebro começa a criar naturalmente uma lembrança de tal atividade e, após alguns dias, quando há a repetição, essa lembrança fica mais presente, isto é, mais forte, funcionando automaticamente e tornando nossas atividades em hábitos inconscientes. Andar de bicicleta é um exemplo. Essas lembranças são chamadas de caminhos neurais.

Quando optamos em colocar nossos filhos nas escolas bilíngues, esse processo fica ainda mais condicionado, pois lá há a integração mais constante com o novo idioma. A correção, que muitas vezes, se faz necessária, ocorrerá em tais locais sem pormenores, exceto se o pai ou responsável notar algo estranho no comportamento da criança. Se a criança começar a falar palavras de baixo calão, possivelmente, houve um primeiro contato, e se tivermos de lidar com isso, temos que pesquisar a fonte e lidar com ela. 

Até os 7 (sete) anos, as crianças aprendem outro idioma com a mesma facilidade com que aprendem a língua materna. Para lidar com problemas de aprendizagem, o ideal é que o pai ou responsável tenha uma conversa franca com o responsável em apresentar tal conteúdo à criança e orientá-lo quanto ao que deve ser feito. Ao mesmo tempo, deve haver um tempo para escutar, pois o responsável pela educação, seja ele um professor, uma babá, um cuidador ou até os chamados "padrinhos da educação" podem ter mais novidades e mais experiência quanto ao processo de ensino-aprendizagem.

Para evitar delongas, o ideal é que o pai ou o responsável aprenda junto com a criança e em caso de dúvida, consulte um especialista certificado no idioma.


Quais os cuidados que devemos ter com a aquisição simultânea de idiomas?

Quando uma criança é apresentada a outro idioma em uma idade muito precoce (do nascimento aos 3 anos), isso é chamado de aquisição simultânea de linguagem; o que significa que a criança está aprendendo a segunda língua ao mesmo tempo em que aprende sua própria língua materna. Embora você possa pensar que o processo de aprendizagem de línguas para bilíngues seria diferente, essas crianças passam pelos mesmos estágios de desenvolvimento que as crianças que aprendem um idioma. Na verdade, essas crianças têm a vantagem adicional de que seus cérebros estão programados para aprender - quanto mais cedo, melhor.

Até recentemente, a abordagem recomendada para pais que criam filhos bilíngues era chamada de "uma pessoa, uma língua", ou abordagem OPOL, que afirmava que a única maneira correta de criar uma criança bilíngue em uma família multilíngue é cada pai falar apenas uma língua para a criança; os dois nunca devem ser misturados. 

Originalmente, os teóricos chamavam a atenção para a associação de cada idioma; ou seja, na visão deles a exposição da criança a uma pessoa diferente era a única maneira de evitar que crianças bilíngues se confundissem. 

Contudo, as pesquisas mais recentes desafiam essa abordagem e sugerem que as crianças são hábeis em distinguir línguas diferentes, mesmo quando são faladas pela mesma pessoa, e as crianças podem aprender a compreender e falar os dois sem confusão. 

A Dra. Patricia Kuhl, pesquisadora do Instituto de Aprendizagem e Ciências do Cérebro da Universidade de Washington, descobriu que essas habilidades começam na infância. Ela afirma: "Os bebês nascem "cidadãos do mundo" e podem adquirir qualquer idioma facilmente e os bebês menores de 8 (oito) meses de culturas distintas podem detectar sons em qualquer idioma do mundo". 

Frequentemente, enquanto a criança está aprendendo sua língua materna e uma segunda língua é introduzida, ela mistura palavras das línguas. A orientação da doutora é para ficarmos tranquilo, pois esse jogo de linguagem é perfeitamente adequado e apropriado para o desenvolvimento. Seu filho não está confuso; ele está tocando e explorando os sons e o uso da linguagem. As crianças se familiarizam se divertindo com a linguagem, e a troca de código é considerada essencial para integrar linguagens. Por isso, os jogos com idiomas são recomendados desde que passem por um crível médico. Os pais ou responsável deve informar ou se consultarem com um especialista na área de fonoaudiologia ou patologia infantil e o questionarem se um determinado jogo é interessante para o aprendizado da criança.

Em seus mais de 30 (trinta) anos de experiência na criação e desenvolvimento de materiais pedagógicos de inglês como segunda língua (ESL), a Dra Kuhl afirma que "quando a linguagem precisa se encaixar para a criança, ela o faz. A linguagem é uma questão de necessidade. Se a criança precisa de algo, ela pedirá e aprenderá rapidamente qual linguagem deve usar para conseguir o que precisa. Portanto, quando os pais ouvem a brincadeira da linguagem e ouvem a mistura feita pela criança criança, as suas línguas não devem desencorajá-la, mas sim suavemente e naturalmente modelar a linguagem correta da mesma forma que fariam com a língua nativa da criança." 

Kelly Ibanez, patologista da linguagem e fonoaudióloga bilíngue vai além. Ela afirma que "todas as crianças são capazes de aprender um novo idioma, incluindo aquelas com atrasos no desenvolvimento e dificuldades de aprendizagem". Ela recomenda que as famílias conversem com a criança da maneira mais confortável possível, e logo as crianças terão um modelo linguístico rico e poderão se espelhar nesses tipos de conversa para poderem conversar com outros membros da comunidade. 

Conforme estudos e pesquisas realizadas por Ibanez, não é o bilingualismo que causa atraso no aprendizado das crianças, e sim, a falta de conhecimento ou até capacidade dos pais ou responsáveis de compreender seu processo e manter uma comunicação sadia e coesa para a formação da criança. O bilingualismo provou-se capaz de melhor a interação da criança com o meio em que vive, sobretudo na aprendizagem de novas palavras, identificação de sons e até mesmo em soluções de problemas. Se a criança aprende que "danger" é perigo, algo que deve acender a luz amarela, a luz da atenção, então ela, por empatia a próxima que está mais exposta a algum perigo, irá avisá-la sobre isso, dizendo "danger", "danger", ou em português "perigo", "perigoso". 

Contudo, outra preocupação margeia as mentes dos pais ou responsáveis. Trata-se do processo de translanguaging (translinguagem). Ele foi originalmente definido por Cen Williams, um educador galês, nos anos 80 como uma prática pedagógica de troca de idiomas em salas de aula bilíngues, e mais tarde foi adaptado por alguns pedagogos como múltiplas formas de práticas discursivas através das quais o indivíduo bilíngue tenta fazer sentido e compreender os contextos relacionados a cada uma das línguas.

O translanguaging é um conceito que inclui o uso híbrido de ambos os idiomas numa tentativa sistemática do indivíduo bilíngue construir um sentido e conhecimento sobre os dois mundos afiliados a ambas as línguas. Contudo, o translanguaging não sugere um limite claro entre os dois idiomas falados pelo bilíngue. O que ele define é que tal indivíduo, seja criança ou não, pode ser descrito como dois monolíngues em uma só pessoa.

Na realidade, o indivíduo bilíngue navega entre os idiomas ao pensar, raciocinar, expressar-se e escolher palavras que melhor convenham com sua ideia. Esse indivíduo, portanto, não irá "desligar" o conhecimento ou "esquecer" as experiências relacionadas a um idioma ao usar o outro - o que ocorre, na prática, é uma complementação e uma constante troca entre os dois idiomas. Consequentemente, o indivíduo bilíngue terá a sua disposição uma gama maior de recursos linguístico, culturais e cognitivos do que o monolíngue.

Aprender uma língua é um processo ativo que requer muitas oportunidades para as crianças praticarem a comunicação com outras pessoas. Ouvir e responder são cruciais para ajudá-las a desenvolver competência. Os pais ou responsáveis devem visitar as escolas bilíngues e pedir algumas audiências, onde eles podem testemunhar um processo ensinando e valorizando o translanguaging.

Se o instrutor não compreender o dinamismo que há na relação entre os idiomas, o aprendizado do aluno bilíngue poderá ser comprometido. Por isso, essa percepção deve ser feita antecipadamente para evitar problemas futuros, como por exemplo, a falta de capacidade de mediação de atividades sociais e cognitivas através do uso de múltiplos recursos. Um smartphone, por exemplo, é um aparelho de múltiplos recursos, e cabe ao pai, mãe ou responsável confirmar se a criança está ou não fazendo o bom uso dele para aprender o novo idioma. Apps práticos são muito bem-vindos nesse aspecto.

Quando acontecer da criança cometer um erro misturando palavras, a recomendação é prestar atenção no erro cometido. Se a criança cometer um erro como "mommy goed" ou "daddy angry" os pais podem simplesmente responder: "Yes, mommy went" ou "daddy is angry" e assim terão corrigido suavemente a criança. A criança assimilará essas informações e aprenderá a usar a palavra correta. Não deve haver exageros. Portanto, gritar não é uma boa ideia.

Um dos maiores erros que os pais podem cometer é criticar e corrigir excessivamente o filho. Em vez disso, a recomendação é deixá-los ouvi-los usar a linguagem, encorajá-los, apoiá-los e observá-los florescer à medida que se tornam bilíngues - ou até mesmo multilíngues.


REFERÊNCIAS:


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